o fascismo é um perfil comportamental, não um modelo de Estado
by Jose Berlange Andrade
Quando se define o fascismo como um regime de governo, com Estado supremo e centralizador, se está falando especificamente dos modelos de governança construídos por Hitler (nazismo) e Mussolini (fascismo), usados nos anos 30 e 40 do século passado. Esses modelos morreram, foram enterrados pelos aliados na II Grande Guerra Mundial, depois que a principal cúpula foi massacrada pelo Exército do Povo (Rússia). No Brasil, o Estado de característica fascista foi experimentado pelo Regime Militar de 1964-87, também superado pela Democracia. Mas, o fascismo – como manifestação da alma ou tendência comportamental ditada pela moral e pelo intelecto – não morre. Entra em estádio latente, esperando que alguma onda transformadora das relações sociais promova insegurança e medo à parcela das pessoas que, por isso mesmo, se perceba ameaçada de perder posições sociais ou privilégios. É neste momento que o oportunismo leva as elites fascistas a proporem ‘soluções salvadoras’, via regra, prometendo exterminar o perigo ameaçador...
Então, as
características do fascismo não estão na modelagem do Estado historicamente
construído. Estão, sim, impregnadas na subjetividade que orienta o
comportamento de quem tem medo, ignorância ou déficit de liberdade
(incapacidade de fazer escolhas operantes [decisões por reflexão própria sobre
atos e fatos sociais livremente observados]).
O perfil moral
e intelectual do fascista, segundo Noberto Bobbio, é este: pessoa que exibe uma
hipocrisia moralista: não possui julgamentos coerentes; sua postura psicológica
e comportamental é moldada pela agressão e pela negação do outro; uma
hipocrisia moralista que rejeita o pensamento crítico e age por oportunismo. Na
política, o fascista adota um discurso focado inteiramente na denúncia
da corrupção e na defesa de valores tradicionais. Utiliza essa pauta de forma
demagógica para se projetar como um salvador patriótico. Não respeita as
instituições sociais, quer impor sua visão de mundo aos que pensam diferente;
para tanto, usa agressão sob a capa da honestidade: ele insulta, acusa e agride
os seus opositores agindo como se fosse moralmente impecável.
Por trás da
fachada de "puro e honesto", o fascista opera como um sociopata ou
criminoso comum que usa a carreira política para alcançar o poder. Uma vez
instalado no controle, abandona qualquer freio ético e não hesita em cometer as
maiores atrocidades — suprimindo direitos, roubando a liberdade e praticando a
maldade aberta.
O fascista
possui uma profunda aversão ao método intelectual e democrático. É movido pela
convicção de que todos os problemas sociais devam ser resolvidos com o uso da
força bruta, abomina o diálogo e nega valor ao conhecimento cientifico.
Ideologicamente
não tem projeto construtivo:
negacionista e destrutivo, politicamente, o fascista define-se pelo
que ele rejeita (o liberalismo, o comunismo, o pluralismo, a razão
iluminista e o globalismo). Ele não possui uma doutrina intelectual própria
e coerente. Se alguém pergunta pelo programa do governo fascista ou pela obra que um líder fascista tenha construído, ele fica perdido em tergiversações e
não sabe o que responder.
Alimentado de ódio
pela diversidade social, o lema do fascista é: "onde há cultura não
há fascismo e onde há fascismo não há cultura". Para Bobbio, o
fascista é um sociopata que carece de profundidade teórica e de originalidade.
Por isto, o
fascista tem o liberal e o intelectual como inimigo: enquanto o verdadeiro
intelectual aceita o pluralismo, tolera a diferença e modera o debate, o
fascista opera na lógica do fanatismo e do narcisismo ingénuo. Ele é avesso à
complexidade e às regras do jogo democrático, preferindo o insulto pessoal e a
aniquilação do contraditório. Inimigo é todo aquele que tem convicção diferente
da sua. Para esta ‘praga’, o remédio é a extinção da sua ‘raça’. Por isto, o fascismo é alimentado por uma retórica
construída justificar a violência. O método de influenciar e determinar o
comportamento das massas é a manipulação e a ameaça, via pressão física e
moral.
Finalmente,
o medo como motor da mentalidade de ressentimento social: Intelectualmente,
o fascista é fruto de crises em que as certezas tradicionais desabam. Bobbio
associa este perfil à mentalidade da pequena burguesia ressentida, que rejeita
o avanço das massas trabalhadoras e teme a perda de status. O fascista
canaliza este medo social não através de soluções lógicas, mas sim da
mobilização cega e emocional em torno do culto a uma autoridade
forte comprometida com a exterminação do mal (o diferente, o outro,
o mal e o inimigo).
Estão resumidas
aqui, em apertada síntese, as principais características do comportamento
fascista. É no conjunto desse perfil construído pela observação atenta e
análise profunda de Noberto Bobbio que a gente encontra a orientação para
compreender e identificar o fascismo, não num lugar fixo e superado da
história, mas em todos os tempos. Ele
adormece toda vez que é amassado por forças que se orientam por valores
cristãos e democráticos. Mas, nunca morrerá. E toda vez que se levantar e vir à
luz exibir sua cara perversa e destrutiva, será calado e imobilizado pelas forças que movimentam a roda da história. A eleição de Lula em 2026
deflagrou o processo mundial para a neutralização política do neofascismo. Por
isto, no mundo inteiro o “L” com a mão está sendo usado para a grande
mobilização vitoriosa.

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