Por que a terceira guerra
mundial, se vier, não será sobre recursos ou fronteiras – mas sobre o
Apocalipse.
By José Berlange Andrade
Enquanto acompanhamos as manchetes sobre o conflito entre
Israel, EUA e Irã, a imprensa tradicional insiste em nos vender uma narrativa
antiga: que tudo se resume a petróleo, influência na política regional ou a
velha novela das bombas atômicas.
Tremenda fuleiragem.
O que estamos testemunhando é algo muito mais profundo, perigoso e…
sagrado. Sim, sagrado. O Terceiro Grande Conflito Mundial, se explodir de vez,
não será motivado por poços de petróleo ou por mísseis nucleares (embora ambos
estejam na foto, desta vez no plano secundário).
A essência do imbróglio hoje é teológica.
Estamos à beira de uma Guerra Santa em tempo real, com dois
campos armados não apenas com mísseis, drones e fuzis, mas com profecias,
revelações e a certeza de que Deus estará presente no instante final, ao lado do
bem e contra o mal (numa relação de recíproca esperança quanto a retornos e
aparições apoteóticas). Os dois lados trabalham na preparação do armagedon!
O Salão Oval virou uma igreja? Vídeos exibem cenas em transe:
o Salão Oval, o centro do poder Ocidental, transformado em palco de orações e profecias.
Pastores evangélicos de olhos fechados, mãos estendidas sobre o presidente
Trump, clamando aos céus por "força para destruir o Irã". Gritos de
"atacar! atacar! atacar!" ecoando onde deveriam ser tomadas decisões
geopolíticas racionais.
Parece roteiro de filme, mas aconteceu de um pêndulo ficar
em movimento entre a luz do palco e a penumbra dos bastidores. Dias antes do
início dos ataques de 28 de fevereiro, o primeiro-ministro israelense Benjamin
Netanyahu antecipou uma visita a Washington e pressionou Trump a endurecer
contra Teerã. Naquele bunker, do outro lado da mesa, o alto comando militar dos
EUA, incluindo o general Dan Caine, alertava: "Isso vai ser um pântano.
Não temos inteligência de ataque iminente. Nossos estoques de mísseis duram
duas semanas apenas."
Mas os conselhos militares perderam. No Salão Oval, quem
venceu foram os conselhos religiosos e as vibrações… proféticas.
Para uma ala poderosa dos evangélicos americanos, apoiar
Israel não é política internacional – é mandamento bíblico.
Eles enxergam o Estado judeu como peça-chave para o fim dos tempos,
e qualquer inimigo de Israel (como o Irã) é automaticamente um inimigo de
Deus. Quando pastores oram no Salão Oval por uma ofensiva, eles não estão
apenas rezando por uma vitória tática. Estão acreditando estar
participando de uma batalha cósmica entre o bem e o
mal.
Problema é que as energias trafegam na mesma frequência. Do
lado de lá, também, todos se movem pela crença na grande guerra
santa.
Na trincheira invisível do Irã, a liderança não fala apenas
em "interesses nacionais". O discurso é de jihad defensiva contra
a opressão do "Grande Satã" (EUA) e do "Pequeno Satã"
(Israel).
E há um detalhe que pouca gente conhece: o coração da fé
xiita iraniana bate por um Salvador invisível. O 12º Imã,
o Mahdi, que teria nascido no século IX e… nunca morreu. Ele está
"oculto", vivo em alguma dimensão superior, aguardando o momento
certo para retornar e estabelecer justiça no mundo. Ele, em aliança com
Jesus, derrotará Satanás.
Enquanto isso, quem governa o Irã? Os aiatolás, que
se enxergam como representantes desse Imã oculto. Para alguns deles, o
confronto com o Ocidente não é apenas geopolítico: é um preparativo
espiritual para a volta do redentor. A guerra contra Israel
e EUA pode ser vista, nos círculos mais messiânicos, como a purificação
necessária antes do fim.
Duas profecias siamesas em rota de colisão? Vamos
matutar um pouco no seguinte: de um lado, cristãos (sionistas) que acreditam
estar acelerando a segunda vinda de Cristo ao apoiar Israel
incondicionalmente. Do outro, xiitas que acreditam estar
preparando o caminho para o retorno do Mahdi ao enfrentar os opressores.
Ambos estão convictos de que Deus está com eles. Ambos
desumanizam o inimigo como "força do mal". Ambos eliminam qualquer
espaço para negociação, porque não se negocia com Satanás!
Falam tanto sobre o programa nuclear iraniano, sobre as
rotas do petróleo no Golfo, sobre a derrubada do regime dos aiatolás, sobre deter
a China e o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Claro, tudo isso importa. Mas,
por baixo dessa camada racional, o que realmente aquece os motores desse
conflito é uma guerra de visões apocalípticas. O objetivo
dos beligerantes é um só e mesmo, apressar o juízo final, antecipar o
armagedon!
Isso é mesmo mais perigoso que mísseis nucleares? Claro,
mano velho. Porque uma bomba atômica pode ser desativada com um acordo
diplomático. Petróleo pode ser negociado com prêmios e vantagens, sanções e
contra-sanções.
Pode-se negociar com uma profecia? Complicado demais. Quando
um líder acredita estar cumprindo a vontade divina, qualquer
recuo é traição. Qualquer concessão é pecado. O outro lado não é
um adversário com interesses legítimos – é o próprio Anticristo a ser
combatido. E para muitos desses crentes, esse personagem maligno já estaria
entre nós...
Não se pode subestimar a força da fé que opera na esfera
metafísica. Foi assim que guerras religiosas consumiram a Europa séculos atrás.
E é assim que o fantasma de uma nova Guerra Santa ronda não apenas o Oriente
Médio, mas o Mundo hoje.
Momento de grave tensão convoca cautela e ação. Primeiramente,
é preciso enxergar o problema com clareza. Não estamos apenas
diante de um conflito particular e regional. Estamos diante de um choque entre
dois fundamentalismos vigentes em vários continentes e que se alimentam
mutuamente.
Passo seguinte, é organizar e mobilizar a sociedade civil
que não comunga com essas profecias: exigir lucidez e bom-senso
de nossos representantes institucionais. Que os militares que alertaram
contra essa guerra sejam ouvidos. Que a racionalidade prevaleça sobre a
revelação na tomada de decisões que afetam milhões de vidas.
Finalmente, talvez o mais difícil, trabalhar nas mídias
tradicionais e nas redes sociais da Internet propondo-se separar fé de
fanatismo. Milhões de cristãos e muçulmanos ao redor do mundo desejam
paz e repelem a violência em nome de Deus. Mas quando a religião é
sequestrada por uma visão apocalíptica que exige a destruição do outro,
o nome disso não é fé – é perigo iminente e inaceitável.
O Terceiro Grande Conflito, se vier, não será sobre
petróleo. Será sobre profecias em rota de colisão. E numa guerra onde ambos os
lados acham que Deus está ao seu lado, quem sobra para pagar o preço? Os
mortais que ousam ficar bobeando no meio do caminho.
Pau nessa lezeirisse, pela qual a prepotência e a
ansiedade humana se arrogam no direito de substituir a Deus, numa tentativa de
antecipar, pelo exercício de guerra santa, uma profecia que compete
exclusivamente à onipotência divina realizar ao tempo da oportunidade de sua
suprema sabedoria.
https://berla.short.gy/CQd9k7
Interessante a análise do articulista sobre o conflito Estados Unidos x Irã. Visões como a dele dá bem a dimensão do perigo em que a humanidade está metida.
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